Linha do empoderamento: nova métrica evidencia o que o PIB não mostra sobre as dimensões da pobreza

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Relatório do McKinsey Global Institute reposiciona o debate sobre vulnerabilidade econômica ao oferecer um novo referencial para medir a pobreza

Nobel de Economia, Amartya Sen define a pobreza como uma situação de precariedade em diferentes aspectos da vida, evidenciando o caráter multidimensional da questão. Essa visão constitui um contraponto sólido à noção que considera somente a renda como variável determinante para medir o grau de privação dos indivíduos. A definição de Sen engloba os diferentes tipos de limitações impostas às pessoas nos âmbitos social, econômico e político.

Na obra “Desenvolvimento como Liberdade”, ao abordar as capacitações, o economista ressalta que o processo de expansão das liberdades é um elemento central para a redução da pobreza, ou seja, a ausência delas ultrapassa a pobreza econômica. No cerne da questão, as facetas da pobreza — política, social e as carências de serviços públicos e assistência social — constituem a ausência de liberdades substanciais que se relacionam cotidianamente com a escassez econômica.

Há anos, a obra de Amartya Sen nutre o trabalho que desenvolvemos na Artemisia para apoiar negócios de impacto e para combater as desigualdades sociais no Brasil. Saindo do lugar da insatisfação com o panorama de vulnerabilidade socioeconômica do país para ocupar o espaço da inovação — levando o desconforto a construir novas arquiteturas táticas –, a organização fundada pela norte-americana Kelly Michel há duas décadas sempre questionou como poderíamos, como sociedade, construir novas narrativas condizentes com uma jornada humana mais justa e igualitária. Inquirimos, constantemente, como modelos inovadores de negócios poderiam endereçar soluções para os principais problemas do nosso tempo.

Entre os desafios enfrentados para apoiar empreendedores comprometidos com o combate às desigualdades está a própria noção de pobreza — e os mecanismos para medir esse grau de vulnerabilidade social e econômica. Nessa jornada, essas métricas baseadas no Produto Interno Bruto (PIB) sempre nos soaram como insuficientes (embora importantes) diante de questões complexas e incômodos profundos.

Como podemos estabelecer uma linha divisória entre vulnerabilidade e autonomia econômica plena? Como qualificar o acesso a uma vida que se abre a partir do acesso a oportunidades, com o indivíduo contribuindo para o crescimento econômico e com reais chances de se concentrar em algo para além da mera sobrevivência?

Essas e outras perguntas têm sido o motor do surgimento de um movimento potente de novas gerações de pesquisadores que têm reelaborado essas formulações sobre dimensões da pobreza e como combatê-las de modo eficaz. São profissionais que honram mentes brilhantes como Amartya Sen e Muhammad Yunus!

É nesse contexto que nasce uma nova forma de mensurar a escassez social e econômica no mundo, a partir do entendimento de que medir o nível de “empoderamento” é mais adequado para avaliar o grau de progresso humano em direção a um mundo no qual as necessidades essenciais humanas sejam plenamente atendidas.

No detalhe, o incômodo com a mensuração convencional e insuficiente da pobreza levou os pesquisadores do McKinsey Global Institute (MGI) a desenvolverem em 2024, em 120 países, o estudo A Better Life Everyone Can Afford: Lifting a Quarter Billion People to Economic Empowerment. Diante de um mundo em que o crescimento econômico não se traduz necessariamente em bem-estar, a MGI propõe uma nova métrica para medir a exclusão econômica: a linha de empoderamento. Mais ambiciosa que a linha de pobreza internacional, ela identifica o ponto em que uma pessoa pode viver com dignidade — algo que inclui moradia, alimentação adequada, transporte, energia, saúde, educação, conectividade, roupas e até algum gasto com lazer e poupança.

O mapeamento mostra que 60% da população global vivia abaixo dessa linha em 2020, embora apenas 9% estivessem tecnicamente em situação de pobreza extrema. A tradução desse dado é que há um contingente invisível de cidadãos que, embora não ilustrem a definição clássica de pobreza, tampouco se encaixam no que é viver com dignidade.

A adoção de uma “linha de empoderamento” alimenta uma metodologia inédita que estima o custo de uma cesta de bens e serviços essenciais para determinar a qualidade de vida básica de um cidadão. Enquanto métricas tradicionais falam de US$ 2,15 diários para determinar a linha da pobreza, a nova metodologia estabelece valores distintos para cada país. No Brasil, por exemplo, vai de US$ 8 a 13 dólares por dia. Para se ter uma ideia, o valor do Egito, da Índia e Indonésia é de US$ 4 a US$ 5 dólares; Estados Unidos e Suíça, o empoderamento demanda de US$ 55 a US$ 70 dólares diários.

Apenas quatro em cada 10 pessoas no mundo conseguem pagar por uma vida digna — o que inclui moradia, alimentação, transporte e algum espaço para poupar. Os outros 60%, ou 4,7 bilhões de pessoas, vivem abaixo da linha de empoderamento, sobretudo nas economias de baixa e média renda — que concentram 4,3 bilhões desses habitantes. Nesses contextos, o PIB pode até crescer, mas não garante que esse crescimento chegue à vida real das pessoas.

O estudo da MGI mensura que o Brasil concentra 120 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha de empoderamento; ou seja, cerca de 57% da população do país. Em nações de alta renda — França, Alemanha, Itália e Reino Unido, por exemplo — esse número varia entre 9 e 15 milhões. Em uma perspectiva propositiva, o levamento aponta que para além do cálculo do valor diário necessário para promover o empoderamento econômico do indivíduo, os países precisam entender quais são os entraves para vencer os desafios. No nosso país, o mapeamento aponta que o maior obstáculo é o transporte público, que corrói 24% da cesta de consumo essencial.

O levantamento alerta que embora o crescimento econômico seja um pré-requisito para o empoderamento das famílias — especialmente em economias de baixa e média renda –, não basta resolver essa equação aumentando a renda. Quando os custos dos bens essenciais aumentam mais rapidamente do que a renda familiar, as pessoas são excluídas — o que sobrecarrega indivíduos, famílias e comunidades, esgarçando o tecido social. Garantir que moradia, alimentação, educação, saúde e outros bens essenciais estejam ao alcance da população é peça importante da construção de economias mais equilibradas, nas quais todos tenham um nível adequado de segurança, além da oportunidade de realizar todo o seu potencial.

Sobre mecanismos para promover o empoderamento da população, os pesquisadores revelam que o envolvimento do setor privado é fundamental para alcançarmos, como nação, a plena gama de opções e autonomia do indivíduo. O racional é que como empregadoras da maior parte da força de trabalho global, as empresas têm um papel natural no empoderamento de funcionários, clientes, fornecedores e comunidades. Elas podem subsidiar assistência médica, conduzir programas de doações para bancos de alimentos, financiar projetos de treinamento voltados à inclusão produtiva e geração de renda digna, por exemplo. Cabe, então, cada corporação avaliar as próprias condições de contribuir para a elevação da linha de empoderamento dos seus stakeholders dentro dos países nos quais opera.

Esse, aliás, é um chamado bastante sério às empresas. Da mesma forma que a pobreza é multidimensional, o ser humano também é. Ele pode desenvolver negócios para lidar com questões de acesso e que enderecem soluções para os grandes desafios sociais e ambientais do momento. As grandes empresas, inclusive, precisam alcançar um estágio de maturidade e responsabilidade social à altura da transformação que precisamos. Há 20 anos, a conexão entre negócios de impacto e corporações era inimaginável; hoje, vivemos um momento com exemplos consistentes de parcerias que têm impactado positivamente a vida de pessoas que são beneficiadas por esse encontro.

Vittude — que já foi tema da coluna em 2021 — ilustra bem essa premissa. Ao disponibilizar os serviços do negócio de impacto focados em saúde mental para os funcionários, as empresas contratantes passam a contribuir diretamente com a elevação da linha do empoderamento de seus colaboradores. E, também, para o crescimento de um empreendedorismo que nasce para resolver um problema que aflige a sociedade.

A leitura do estudo, em linhas gerais, reforça as ideias trazidas por Amartya Sen de que combater o ciclo de pobreza exige mais do que gerar renda: demanda ampliar as liberdades, promovendo autonomia. A linha de empoderamento recalibra os indicadores, práticas e compromissos balizadores do passado; ela desestabiliza métricas naturalizadas e evidencia o que o PIB não mostra — a distância entre o crescimento econômico e o florescimento humano.

Se quisermos, como sociedade, garantir que mais pessoas vivam com plena dignidade, precisaremos ter coragem e ambição suficientemente grandes para redesenhar o mundo. O desafio não é apenas técnico: é ético e profundamente coletivo.

Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.


[Foto: Alexandre Cerqueira]

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