Blockchain pelo clima: Green Mining lança o crédito de carbono da reciclagem

Negócio de impacto que já usa o blockchain para gerar dignidade para catadores, agora irá compartilhar o crédito de carbono para gerar renda extra

Nos últimos anos, tecnologias emergentes têm sido apresentadas como soluções milagrosas capazes de revolucionar a economia. De todas, o blockchain talvez tenha sido a mais polêmica, ora associado ao frenesi das criptomoedas, ora à desconfiança de bolhas especulativas.

Entretanto, a exemplo da Inteligência Artificial — que abordei no artigo IA com propósito: negócios de impacto usam tecnologia para combater as desigualdades socioambientais –, a aplicação como inovação incremental na resolução de problemas sociais e ambientais muda a percepção que temos desse potencial transformador.

Digo isso à luz de exemplos como o da Green Mining, negócio de impacto fundado por Rodrigo Oliveira, em 2018, que atua com uma tecnologia de logística reversa inteligente para recuperar embalagens pós-consumo de forma eficiente e trazê-las de volta para o ciclo de produção. Na visão do empreendedor, a atuação da empresa deve ir além do ambiental — precisa colocar, no centro de sua operação, as pessoas que trabalham com reciclagem, historicamente em condições precárias e com poucas oportunidades de emprego.

Rodrigo Oliveira, fundador da Green Mining Foto: Jean Borges/GM Divulgação

Parte da equipe, inclusive, é formada por trabalhadores que concluem o curso Reciclar para Capacitar, oferecido pela Prefeitura de São Paulo em parceria com a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana. Após a formação, eles são contratados em regime CLT e passam a circular pelos bairros com triciclos, coletando materiais recicláveis.

Voltando ao blockchain, a tecnologia é aplicada pela Green Mining para resolver um problema estrutural da economia circular — a rastreabilidade confiável de resíduos recicláveis. O modelo criado pela empresa conecta catadores e moradores diretamente às Estações Preço de Fábrica, hubs que recebem materiais pós-consumo, eliminam intermediários e pagam semanalmente via PIX o preço de fábrica pelos recicláveis.

Cada entrega é registrada em blockchain, com informações imutáveis de pesagem, geolocalização, fotos e classificação por tipo de material, além dos comprovantes de pagamento com CPF. O resultado é uma cadeia de custódia auditável de ponta a ponta, que já destinou mais de 14,7 milhões de quilos de embalagens para a reciclagem e evitou 17,5 mil toneladas de CO₂.

Na prática, a tecnologia assegura a imutabilidade dos dados de pesagem, classificação, geolocalização, cadeia de custódia e comprovantes de pagamento, sempre em conformidade com as exigências sociais e regulatórias.

Em breve estas toneladas de CO₂ mitigadas irão gerar renda extra para catadores — a startup foi pioneira na submissão do projeto para certificação do crédito de carbono da reciclagem via Gold Standard. Desta forma, conseguirá futuramente entregar parte do valor para os catadores e ainda ampliar o programa para atender ainda mais pessoas.

Conversando com o empreendedor, ele é enfático ao afirmar que o blockchain nunca foi apenas sobre tecnologia, mas sobre transformar impacto social em dados confiáveis. “Pagamentos justos, rastreabilidade e ausência de intermediários só têm valor se puderem ser comprovados de forma imutável e agora irão gerar um crédito de carbono humanizado”, afirma.

Oliveira investiu na criação dessa infraestrutura, que hoje dá segurança a marcas que financiam logística reversa, facilita auditorias de créditos de reciclagem e de carbono, e praticamente eliminou fraudes e divergências em operações. E o sistema evoluiu nos últimos anos. Depois de registrar apenas dados básicos de pesagem, a plataforma passou a incluir fotos por entrega, integração de PIX automatizado, API para auditoras e clientes e, mais recentemente, testes com QR Codes e etiquetas NFC para identificar lotes únicos.

Os próximos passos envolvem ancoragem pública dos registros, smart contracts que liberam pagamentos conforme a qualidade do material e dashboards auditáveis em tempo real.

Mais do que uma solução tecnológica, a experiência da Green Mining revela uma chave essencial para o futuro da inovação e justiça climática: tecnologias como blockchain ou inteligência artificial só cumprem o papel transformador quando são orientadas para causas sociais e ambientais urgentes.

Nesse caso específico, garantir dignidade para catadores, credibilidade para as empresas e ganhos ambientais mensuráveis. Em outras palavras, não é o blockchain em si que importa, mas o impacto socioambiental positivo que propicia.

Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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