Negócios de impacto como Simbi, H2B e Ana Health estão desenvolvendo, treinando e aplicando inteligência artificial para potencializar soluções de combate às desigualdades e para promover impacto social positivo
Nas últimas duas décadas, o ecossistema de negócios de impacto tem apresentado um amadurecimento bastante consistente que pode ser visto na qualificação dos empreendedores, na inovação das soluções, nos modelos de negócios, nas parcerias e nas formas de financiamento. Destaco, inclusive, o avanço do uso de tecnologias — como a inteligência artificial — para potencializar o impacto social e ambiental positivo.
As experiências nacionais do uso de IA apontam para uma qualificação que não se rende ao deslumbramento tecnocrático nem ao determinismo algorítmico. Pelo contrário, ressignificam a tecnologia como um instrumento de transformação social.
Diante do risco global de as tecnologias reforçarem as desigualdades, os exemplos produzidos pelo empreendedorismo de impacto nacional mostram que é possível programar futuros com mais intencionalidade e inteligência social.
Na prática, o Brasil mostra que a inteligência artificial começa a ser associada a uma nova ambição: a transformação social positiva. Para isso, ela está sendo treinada para escutar territórios; traduzir e combater vulnerabilidades; e apoiar organizações que promovem o combate às desigualdades.
No país, destaco três negócios de impacto — Simbi, Ana Health e H2B — que têm demonstrado que, quando ancorada em evidências e responsabilidade ética, a IA pode se tornar uma aliada potente na resolução de problemas socioambientais persistentes.
Do redirecionamento de recursos para territórios vulneráveis à personalização do cuidado em saúde e à construção de Teorias de Mudança por organizações de impacto, os exemplos apontam para um uso da tecnologia que não substitui o ser humano, mas o potencializa.
Como as empresas usam IA com propósito?
Em síntese, a Simbi usa inteligência artificial para otimizar o direcionamento de investimento social privado de grandes empresas. A Ana Health combina modelos de IA com ciência de dados e escuta clínica para oferecer cuidado integral e personalizado a milhares de pessoas em redes públicas e privadas de saúde; atualmente aprimora suas soluções em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais.
A consultoria H2B atua como uma inteligência aliada ao terceiro setor, treinando algoritmos para traduzir objetivos sociais em dados e insights estratégicos, construindo Teorias de Mudança com custos mais acessíveis e em menor tempo para organizações de pequeno e médio portes.
Especializada na gestão de investimentos sociais, a Simbi incorporou inteligência artificial a soluções que apoiam todo o ciclo de aportes e ampliam o seu impacto positivo.
Um dos destaques é a Visão do Investidor, módulo central da plataforma que organiza e interpreta o histórico dos investimentos sociais realizados por uma empresa. Com o apoio da IA, essa visão deixa de ser apenas um registro e passa a funcionar como um verdadeiro radar estratégico, identificando padrões e apontando caminhos mais eficazes para ampliar impacto, governança e transparência.
Outro exemplo é o Mapa de Demanda Social, que reúne mais de 120 indicadores socioeconômicos em nível municipal, permitindo identificar territórios que apresentam maior urgência e prioridade para receber investimentos.
Ao conectar dados do Mapa com análises da Visão do Investidor, a plataforma oferece às empresas uma compreensão ampla que une a fotografia atual das necessidades do país à trajetória e aos resultados já alcançados pelos investimentos realizados, inclusive as contribuições aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Investimento social privado
Essa combinação de perspectivas abre novas possibilidades para empresas que desejam ir além da simples distribuição de recursos. Ao cruzar informações de investimentos já realizados com indicadores de desenvolvimento humano e vulnerabilidade social, torna-se possível priorizar regiões e causas com maior potencial de transformação.
Mathieu Anduze, cofundador da empresa, analisa que o Brasil vive um momento de amadurecimento na forma com que as corporações lidam com o investimento social privado.
“Há, por parte das grandes empresas, a percepção de que o investimento social, via leis de incentivo ou recursos próprios, tem um potencial real de contribuir na redução de desigualdades. E, nesse processo, a tecnologia é uma grande aliada por trazer evidências e dados sobre como o capital investido pode ser mais bem empregado em prol do combate às vulnerabilidades sociais”, afirma, acrescentando que a plataforma da Simbi já geriu mais de R$ 635 milhões.
Tadeu Silva, cofundador e CTO da Simbi, reforça que a IA já está mudando a forma como se conduz todo o processo de investimento social no Brasil. “Ao interpretar dados consolidados e confiáveis, conseguimos oferecer recomendações embasadas e reduzir riscos. Isso significa mais governança e eficiência do começo ao fim”, aponta.
O segundo exemplo é a H2B. Fundada em 2023 por Haroldo Torres, Edgard Barki e Octavio Augusto de Barros, surgiu com a proposta de integrar inteligência artificial ao planejamento estratégico de organizações de diferentes portes. O diferencial está no uso de uma metodologia própria que aplica IA à construção de Teorias de Mudança — ferramenta essencial para orientar, mensurar e comunicar impactos sociais.
Ao transferir etapas operacionais desse processo para a tecnologia, a H2B reduz tempo e custos de aprendizado, tornando o método mais acessível, sobretudo para organizações de pequeno e médio porte que precisam responder rapidamente às demandas de investidores e stakeholders. Ainda assim, o olhar crítico e o papel de facilitação da consultoria permanecem centrais para garantir consenso, robustez metodológica e empoderamento dos atores envolvidos.
Na prática, a consultoria tem apoiado clientes na criação de dashboards de gestão de impacto e na otimização da construção da Teoria de Mudança. A IA organiza informações, sugere caminhos e cruza dados, mas são os consultores que formulam as perguntas certas e dão sentido estratégico às respostas. Para Octavio Augusto de Barros, a vocação da tecnologia é acelerar tarefas e liberar espaço para uma atuação humana mais interpretativa e estratégica.
O futuro da H2B passa por simplificar ainda mais suas soluções, oferecendo versões mais acessíveis e modulares de seus serviços, sem abrir mão da qualidade. Com isso, busca ampliar o alcance para fundações, institutos e negócios sociais que necessitam de ferramentas avançadas de impacto, mas dispõem de recursos limitados, mantendo também versões completas para organizações maiores e mais complexas.
O terceiro negócio que destaco é a Ana Health, fundada pelo cirurgião Olívio Alves de Souza Neto e pelo engenheiro de produção Víctor Cussiol Macul, que está desenvolvendo soluções tecnológicas em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para potencializar o impacto social na saúde integral. A startup utiliza inteligência artificial com técnicas avançadas como NLP, engenharia de prompt e aprendizado por reforço com feedback humano (RLHF).
O projeto conta com o apoio da Finep e da EMBRAPII, que financiaram etapas cruciais de pesquisa e desenvolvimento, como bancos de dados vetoriais, seleção de modelos de linguagem, prototipagem de sistemas de engajamento de pacientes e personalização de recomendações.
O objetivo é criar agentes de IA capazes de apoiar os profissionais de saúde na Atenção Primária Digital, fornecendo recomendações personalizadas baseadas em dados clínicos, sociais e territoriais. Esses agentes podem identificar indivíduos que necessitam de acompanhamento mais próximo, sugerir interações proativas e monitorar a adesão aos tratamentos. A proposta vai além do cuidado individual, buscando construir um sistema de saúde mais eficiente, equitativo e escalável.
Segundo os empreendedores, a colaboração entre academia, governo e setor privado reforça o compromisso da Ana Health com a democratização da saúde, demonstrando como a tecnologia pode ser aplicada com ética e rigor científico para ampliar o acesso e promover um cuidado humanizado.
Olhando para os exemplos da Simbi, da H2B e da Ana Health, fica evidente que o Brasil tem produzido inovações que colocam a inteligência artificial a serviço de algo maior do que a eficiência: a redução das desigualdades sociais e ambientais.
Esses negócios demonstram que é possível usar tecnologia de ponta sem abrir mão da ética, da escuta dos territórios e da intencionalidade social. Em um momento em que os riscos do uso indiscriminado da IA se tornam pauta global, o ecossistema de impacto brasileiro oferece pistas de como alinhar ciência, mercado e compromisso público para transformar futuros.
Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.
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[Foto: Mathieu Anduze, Tadeu Silva e Raphael Mayer, fundadores da social tech Simbi Foto: Vanessa Bulhões/Divulgação]








