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Combate a doenças crônicas não transmissíveis vira alvo de negócios de impacto social

Postado em 18 março 2019

O contexto social tem uma relação direta com a saúde. A desigualdade expõe a população de menor renda a uma condição de vulnerabilidade social que impacta no bem-estar e na qualidade de vida. Dados de 2017 da Organização Mundial da Saúde apontaram 928 mil mortes no Brasil como consequência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). O Ministério da Saúde estima que temos cerca de 57,4 milhões de brasileiros com mais de 18 anos acometidos por câncer, diabetes, hipertensão, depressão, problemas respiratórios, Alzheimer ou outras patologias enquadradas na definição.

Essa categoria de doença é a principal causa de mortalidade no mundo, respondendo por 41 milhões de óbitos por ano. Não por acaso, 80% das vítimas fatais são cidadãos de países de baixa e média rendas, contra 13% dos países mais ricos, no período de 2000 a 2011. Quando avaliadas as perdas econômicas globais — considerando os custos de saúde e a perda da força de trabalho — registra-se US$ 7 trilhões entre 2011 e 2015.

Os Determinantes Sociais da Saúde (DSS) englobam fatores sociais, econômicos, étnicos-raciais, psicológicos e comportamentais que reforçam problemas de saúde e incidem em fatores de risco para a população. Doenças como depressão, hipertensão e estresse são recorrentes e preocupantes em um cenário de crise socioeconômica, agravadas pelos determinantes sociais que atingem a baixa renda — população com maior risco ao desemprego, piores condições de trabalho, habitações insalubres, alimentação inadequada e menor acesso aos serviços públicos. O contraponto desses fatos é que tais doenças são passíveis de ações preventivas.

Diante dessa realidade, os negócios de impacto social têm sido uma solução de acesso para a baixa renda, sobretudo associado à promoção de saúde e à prevenção de doenças; essas empresas apresentam, inclusive, novas formas de oferecer oportunidade de escolha para os brasileiros, além de qualificar e complementar o atendimento prestado pelo SUS, porta de entrada para o atendimento médico de cerca de 70% da população do País.

Nessa lógica de inovação empreendedora, se insere a ISGame. Fundada por Fábio Ota em 2014, a empresa — que está sendo acelerada na Estação Hack — ensina idosos e jovens a desenvolver games em 2D para PCs e smartphones. Para os maduros, o ato de programar e jogar os próprios games produzidos ultrapassa a aprendizagem por ser uma forma de tratamento preventivo para demências como o Alzheimer, que está entre as DCNT. Propicia, ainda, a inclusão social, a inclusão digital e a integração multigeracional.

No Brasil, existem cerca de 1,2 milhão de pessoas com Alzheimer — e surgem aproximadamente 100 mil novos casos por ano. Com o envelhecimento populacional, estima-se que a demência triplique até 2050 pelo mundo, afetando principalmente países de baixa e média rendas. As pesquisas comprovam que, quanto menor o nível educacional, maior a tendência de desenvolver a doença. Quando se pensa no potencial do mercado, hoje o País possui mais de 30 milhões de idosos, de acordo com o IBGE; em 2060, um em cada quatro brasileiros terá mais de 65 anos.

“Estamos diante de iniciativas incipientes frente aos desafios das doenças crônicas, o que mostra ser ainda mais urgente fortalecer quem está olhando para esses desafios”

A motivação de Fábio Ota surgiu ao acompanhar a esposa em uma sessão de fisioterapia. Ele percebeu que os aparelhos de neurofeedback são muito similares aos videogames, com os quais já trabalhava. A partir daí, teve a ideia de atuar na saúde preventiva para idosos com jogos. Com metodologia própria para ensinar os maduros a jogar e desenvolver os próprios videogames — gerando estímulos cognitivos, físicos e sociais — a ISGame já atendeu 120 idosos e 80 crianças em duas unidades (São Paulo e Campinas) e tem a intenção de impactar a população de baixa renda.

Por acreditar nesse potencial do empreendedorismo de impacto social para acolher os desafios relacionados às doenças crônicas não transmissíveis, a Artemisia firmou uma parceria com a Associação Samaritano para selecionar e acelerar gratuitamente até 15 negócios focados na temática. Os empreendedores — que já tenham protótipos desenvolvidos e com potencial de atender a população de menor renda — podem se inscrever até 15 de abril. A proposta do programa “Artemisia Lab: Promoção da Saúde e Prevenção” é apoiar negócios com novas soluções e potencial para impactar milhões de brasileiros — especialmente as pessoas mais vulneráveis de nossa sociedade.

Acredito muito na união de esforços como instrumento para potencializar inovações e ampliar impacto social. E os modelos de negócios se mostram um caminho viável para emergir soluções em larga escala — no médio e longo prazos — no setor da saúde. Hoje, no Brasil, estamos diante de iniciativas incipientes frente à dimensão dos desafios apresentados pelas doenças crônicas não transmissíveis, o que mostra ser ainda mais urgente fortalecer quem está olhando para esses desafios e querendo transformar a realidade de milhões de brasileiros.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil. (Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor do Estadão PME)

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