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As cinco tendências da mobilidade para a redução das desigualdades

Postado em 20 março 2019

Empreendedores estão contribuindo para a construção de uma cidade mais democrática combatendo a segregação espacial, em especial dos mais pobres

Por Maure Pessanha *

As cidades do amanhã devem ser mais humanas e inteligentes. Quanto mais opções para os deslocamentos diários, dando maior poder de escolha aos cidadãos, melhor. Uma análise aprofundada mostra alguns pontos que devem ser considerados nesse processo desafiador de construir o futuro da mobilidade no Brasil. O primeiro deles está intrinsecamente associado ao crescimento e ao envelhecimento populacional; o segundo, à visão do cidadão no centro e como foco para pensar em mobilidade e cidades; o terceiro, aos incentivos aplicados a transportes coletivos e na mobilidade ativa; o quarto, à possibilidade do não deslocamento — trabalho remoto, política de flexibilidade e horários alternativos; e, em quinto, um fator que é transversal a todos: o uso de tecnologias como alternativas acessíveis para a população mais vulnerável.

A Tese de Impacto Social em Mobilidade destacou que inovações na mobilidade pessoal acontecem por mudanças sociais, ou seja, pelo crescimento da população urbana, pelo crescimento da economia de compartilhamento, pelo surgimento de tecnologias disruptivas que mudam a lógica atual e pela pressão da sociedade por soluções sustentáveis e com redução de poluentes.

Nesse cenário, um sistema integrado e inteligente de modais deve considerar esforços dos poderes público e privado, olhar para a pegada ambiental e garantir que o cidadão esteja saudável e seguro. Muitos podem perguntar o que inovações sociais e negócios têm a ver com isso. A resposta é tudo. Empreendedores estão contribuindo para a construção de uma cidade mais democrática, combatendo a segregação espacial, em especial dos mais pobres.

Para esses empreendedores e empreendedoras, parte relevante da reflexão sobre o futuro da mobilidade é pensar quais são as tendências que apontam para o combate de uma mobilidade restrita — que é, aliás, elemento-chave para a exclusão social à medida que contribui para a desigualdade. A falta de mobilidade limita as pessoas a desenvolverem plenamente as próprias capacidades, a exercerem direitos e acessarem serviços básicos e oportunidades, agravando os níveis de pobreza e exclusão. As cinco tendências podem nortear a criação de negócios inovadores e conectados com as demandas da sociedade.


Tendência # 1 | Mobilidade como Serviço

A mobilidade como serviço é a integração de todas as opções modais de transporte em uma plataforma digital que integra planejamento, informações, reserva e pagamento de diferentes modais de transporte — público e privado. Essa é uma alternativa que traz variedade na oferta, permitindo que o deslocamento seja mais rápido, limpo e barato. Na prática, em uma plataforma digital, o usuário planeja, com base em informações, o deslocamento levando em consideração custo, reserva e formas de pagamento. O uso de dados ajuda a tomar a melhor decisão para um deslocamento que pode integrar meios públicos e privados.

Centrar as soluções no usuário e no uso de dados para resolver as necessidades de mobilidade em um único lugar é uma iniciativa recente. Nessa tendência, os benefícios esperados são planejamento e roteirização da viagem com vários modais; flexibilidade no pagamento; personalização dos serviços; e diminuição de congestionamento.

Tendência # 2 | Mobilidade compartilhada para cidades mais humanas

A mobilidade compartilhada aparece como uma tendência já posta, saindo da lógica de propriedade para a ideia de serviço — se mostrando uma alternativa para a diminuição de congestionamento e dos custos das viagens. O que vale acrescentar a essa tendência é o entendimento que a mobilidade das pessoas será melhor à medida que as cidades se tornarem mais humanas e inteligentes — que têm relação com eficiência e democracia de acesso.

Entre os princípios da mobilidade compartilhada, que apoia a construção de cidades mais humanas, destacam-se: planejar cidades e mobilidade juntas; focar em mover pessoas (e não necessariamente os modais); projetar visando acesso para todos; evoluir rumo à emissão zero de poluentes; cobrar tarifas justas dos passageiros; gerar benefícios públicos via dados abertos; e promover a integração e a conectividade de modos de transporte.


Tendência # 3 | Telemedicina

A telemedicina — toda a prática médica realizada a distância — apesar das questões de regulamentação ainda em discussão no Brasil, também se apresenta como uma forte tendência. Mostra-se uma solução viável para aumentar o acesso aos serviços de saúde, especialmente em locais remotos, trazendo agilidade aos atendimentos, redução de custos e possibilitando o monitoramento e acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, por exemplo.

Pode, ainda, pode aliviar o desequilíbrio com a distribuição de profissionais, ao permitir a assistência primária em comunidades em regiões geográficas e/ou socioculturais distantes dos grandes centros urbanos.

“Ainda nos deparamos com a falta de oferta de serviços e o alto custo de transporte, que restringem oportunidades de trabalho e acesso à saúde, educação, serviços financeiros e lazer”

Tendência # 4 | Eletromobilidade

Os veículos eletrificados são uma tendência no setor de mobilidade, porém seu impacto principal é ambiental — por conta da redução de poluentes. Um terço do consumo de energia e 50% das emissões de gases de efeito estufa, devido ao uso de energia, são oriundos do setor de transportes. Por isso, a eletromobilidade é percebida como uma alternativa que deve ser observada. Os veículos eletrificados são classificados como os que utilizam um ou mais componentes elétricos, em parte ou completamente, para a propulsão. O alto custo de aquisição é o principal motivo que impede a adoção da tecnologia em maior escala; no Brasil, esses veículos estão ao alcance, apenas, das classes mais altas.

Outros desafios para a eletromobilidade são as viabilidades técnicas, econômicas e a implementação. Torna-se necessária uma rede de infraestrutura de recarga, regulações e legislações que permitam a viabilidade. Atualmente, essa tendência tecnológica não tem alcançado a população de baixa renda com uso individual, mas sim, por meio do uso coletivo, como os ônibus públicos eletrificados.


Tendência # 5 | Carros autônomos

A tecnologia de veículos autônomos está se desenvolvendo rapidamente ao redor do mundo e se apresenta como tendência, apesar de ainda não se mostrar uma alternativa acessível. A tecnologia composta por sensores e processadores é responsável por interpretar dados para identificar o ambiente e conduzir o veículo de maneira mais segura, sem a necessidade de um motorista. Ainda não estão destinados ao consumo do público em geral, mas já existe a aplicação da tecnologia em setores como agricultura e transporte de cargas e pessoas em áreas restritas. De acordo com dados da Deloitte — the rise of mobility as a service 2017, até 2040 espera-se que 80% da quilometragem em áreas urbanas seja feita em carros autônomos compartilhados.

O futuro da mobilidade é multimodal e integrado. Mas precisamos mudar a realidade de hoje, na qual ainda nos deparamos com a falta de oferta de serviços e o alto custo de transporte, que restringem oportunidades de trabalho e acesso à saúde, educação, serviços financeiros e lazer. As áreas mais pobres tendem a ter menos acesso a serviços como hospitais, bancos, centros educativos, entre outros, o que dificulta desfrutar de direitos básicos e restringem a integração ao mercado de trabalho.

No cotidiano da população de menor renda, a desigualdade acontece não apenas pela falta de oportunidades, mas pela dificuldade de acessá-las. Frente a isso, quando pensar em empreender — seguindo as tendências do tema — convido os empreendedores a olharem para a mobilidade com a visão mais ampla: a do acesso, da cidadania e do direito de ir e vir.

 

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