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O papel dos investidores no apoio a empreendedores sociais nas periferias

Postado em 01 abril 2020

As mais de 13 milhões de pessoas que vivem nas comunidades em todo o Brasil podem ser as principais vítimas do novo coronavírus, como reitera Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, zona sul de São Paulo.

A alta concentração de pessoas em habitações insalubres; a falta de água limpa em diversas regiões — temos quase 35 milhões de habitantes que vivem sem acesso a água tratada (17% da população) e 100 milhões sem esgoto (47,6% da população), de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, de 2018; a falta de acesso ao álcool em gel; e o desafio do atendimento prestado pela rede pública de saúde são alguns dos fatores que tornam o cenário ainda mais desolador.

Nas comunidades, a pandemia ganha dimensões maiores diante da vulnerabilidade econômica e social. A necessidade de trabalhar para alimentar a família impede que muitos sigam as recomendações de isolamento social. O esvaziamento do espaço público não é uma realidade viável para os moradores das favelas e periferias de muitos lugares do globo.

Com perplexidade e indignação, li — sobretudo nas redes sociais — que o novo coronavírus é uma doença democrática; que afeta a todos os cidadãos do planeta da mesma forma; que nos nivela como humanidade. Essa crença é absurda. As pessoas de grupos vulneráveis serão as mais afetadas pela pandemia. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que 40% das pessoas no mundo, 3 bilhões de cidadãos, portanto, não têm acesso à água limpa, sabão ou informações a respeito da prevenção.

Na China, a ONU Mulheres chama a atenção para o aumento da violência doméstica durante a quarentena. A Organização das Nações Unidas alerta para o impacto do coronavírus na ajuda humanitária em campos de refugiados, por exemplo. Então, esse tipo de discurso de “doença democrática” está associado a uma realidade distorcida, que norteia discursos cruéis e desprovidos de empatia.

Os empreendedores de impacto social há tempos olham para as pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e têm transformado a forma de fazer negócios no Brasil com soluções que visam, justamente, amenizar os problemas enfrentados pela população de menor renda e reduzir as desigualdades. Embora eu não possa estimar o que vamos vivenciar em um futuro próximo, acredito que os negócios de impacto social serão cada vez mais necessários para conter a escalada da pobreza e da escassez econômica.

Em um momento no qual a inovação social assume uma importância gigantesca, procuro estimular investidores, fundações, institutos e atores do ecossistema a continuarem apoiando esses empreendedores com investimentos, mentorias e conexões.

É importante seguir avaliando e apoiando as startups, aproveitar o momento para acompanhar a capacidade dos empreendedores em dar respostas frente aos desafios e pensar em como podemos garantir a manutenção desses negócios no período de crise, pois eles serão fundamentais quando essa tormenta passar para reconstruirmos a sociedade com novas bases. O papel dos investidores e articuladores do campo é decisivo. Juntos somos mais fortes!

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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