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Empoderamento feminino com tecnologia conecta alunas ao mercado de trabalho

Postado em 17 junho 2020

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) produziu um relatório no qual recomenda aos governos que adotem políticas de assistência específicas para segmentos socialmente vulneráveis, em especial, para as mulheres residentes em periferias e favelas. O alerta se deve ao fato de elas estarem na linha de frente do trabalho — não remunerado — de cuidado aos familiares e amigos em tempos de pandemia do novo coronavírus.

Também estão envolvidas em atividades remuneradas e que apresentam alto risco de contágio: elas representam entre 80% e 90% das enfermeiras, técnicas de enfermagem, cuidadoras, faxineiras e domésticas.

O Ipea não está sozinho nesse alerta. Com base em estudos acadêmicos, a ONU Mulheres publicou um documento mostrando que a rotina das mulheres, em comparação com a dos homens, tem sido mais afetada tanto nessa quanto em outras epidemias. Especialistas apontam que a atuação nas tarefas domésticas e em profissões “precarizadas” — ligadas, sobretudo, ao cuidado e à limpeza — são fatores que potencializam o risco a essa parcela da população.

Embora sejam as mais impactadas, as principais decisões políticas e econômicas sobre a condução de medidas frente ao combate ao coronavírus são tomadas por homens; as vozes mais ouvidas em meio ao turbilhão de incertezas são masculinas. Aliás, em todo o mundo, as mulheres têm pouca representação frente ao número de chefes de Estado ou de governo. No entanto, em países liderados por elas, os resultados chamaram a atenção pelas estratégias positivas de enfrentamento à pandemia.

Uma reportagem recente publicada pelo Estadão mostra que a produção científica de mulheres e mães despenca em meio à pandemia. Em um levantamento com 6 mil estudantes de pós-graduação, professores e pós-doutores escancaram o desafio feminino: entre as pós-graduandas, apenas 10% conseguem realizar as pesquisas.

O número de denúncias de violência contra mulher aumentou quase 40% em abril deste ano, em comparação a 2019, segundo dados do Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos. O cenário é muito claro quanto à importância de criarmos mecanismos de apoio às mulheres.

É nítido que estamos diante de um cenário alarmante, no qual precisamos voltar os nossos olhares aos desafios de gênero, buscando impedir retrocessos e manter os avanços e conquistas femininas. E, aqui, chamo a atenção para o combate à precarização do trabalho e ao acesso a oportunidades de qualificação profissional que possibilitem independência financeira e jornadas de carreiras promissoras. Essa é uma causa que temos que abraçar para nos contrapor a parte das assimetrias de poder que vemos hoje.

Um negócio de impacto social liderado por Iana Chan e Mariana Pezarini tem atuado nessa temática via combate ao gap de oportunidades de formação. A PrograMaria atua com a missão de empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação, oferecendo cursos que combinam teórica com prática, conectando as estudantes com o mercado de trabalho.

Essa articulação está diretamente associada à inserção de mulheres no mercado de tecnologia e à geração de renda por meio dos empregos; aumento da diversidade dentro das empresas contratantes; e aumento de representatividade feminina em cargos de tecnologia da informação.

Uma iniciativa recente das empreendedoras — que dialoga com esse contexto de pandemia e com o objetivo de apoiar mulheres — foi o Sprint PrograMaria, uma jornada online gratuita de conteúdo. Ao longo de duas semanas, meninas e mulheres cisgênero e transexuais receberam atividades voltadas a desenvolver conhecimentos sobre inteligência artificial.

A proposta foi que, ao final do curso, as participantes estivessem aptas a dominar os principais conceitos para aplicação de IA, assim como entender casos técnicos de machine learning e ciência de dados. Conhecimento para que elas possam empreender a própria vida, encontrando uma nova carreira em tecnologia.

A educação permeada de sororidade é o caminho para descolonizar futuros; é uma via empática para construirmos uma nova narrativa de potência para meninas e mulheres brasileiras.

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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