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Direito de ir e vir: startup leva mais mobilidade e autonomia a pessoas com deficiência

Postado em 30 maio 2019

Empresa Livre facilita o cotidiano de quem tem mobilidade reduzida ao transformar uma cadeira de rodas num triciclo elétrico com autonomia de 25 km

 

Um relatório conduzido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2018 aponta que há mais de um 1 bilhão de pessoas com alguma deficiência no mundo. A análise do secretário-geral da entidade é que os dados alertam que esses cidadãos estão em desvantagens no que diz respeito ao cumprimento da maioria dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — que formam um conjunto de compromissos para acabar com a fome e a pobreza; garantir educação e saúde de qualidade para todos e todas; eliminar a violência contra as mulheres; e reduzir as desigualdades até 2030. Está muito claro que a discriminação com base nas deficiências físicas e intelectuais do indivíduo cerceia o acesso a transporte, vida cultural, espaços educacionais e serviços públicos, perpetuando uma situação de isolamento social e aumentando a vulnerabilidade.

Quando analisamos as demandas da população de baixa renda em setores estruturantes — saúde, educação, serviços financeiros e habitação — vemos que as pessoas com deficiência (PCD) das classes C, D e E são ainda mais desassistidas; estão em grave situação de risco social e impedidas de ter um desenvolvimento pleno por falta de acesso a produtos e serviços adaptados às necessidades e realidade financeira. Ou seja, brasileiros expostos a um círculo vicioso de não prosperidade.

Por outro lado, quando falamos em oportunidade de negócio e de impacto social, estamos olhando para possibilidades de fazer a diferença com soluções inovadoras. Estou falando da tecnologia assistiva aplicada aos negócios. O termo, originado do inglês assistive technology, é utilizado para identificar recursos e serviços que contribuem para proporcionar — ou ampliar — as habilidades funcionais de pessoas com deficiência, resultando em inclusão e melhor qualidade de vida.

No Brasil já temos exemplos reais. Um negócio de impacto social fez a diferença na vida de pessoas com dificuldades de locomoção que assistiram aos shows do Lollapalooza Brasil, em abril deste ano. Em parceria com os organizadores do festival de música, os empreendedores da startup Livre disponibilizaram 50 Kits Livres — um equipamento que ao ser acoplado na cadeira de rodas transforma-a em um triciclo motorizado elétrico, permitindo uma autonomia média de 25 quilômetros de deslocamento. Fundada em 2014 pelos irmãos Júlio e Lúcio Oliveto, a empresa de São José dos Campos (SP) busca facilitar o cotidiano de pessoas com deficiência por meio de equipamentos que ampliam a mobilidade, resgatam a autoconfiança e a autoestima, e proporcionam mais liberdade.

O equipamento permite andar sobre calçadas danificadas, descer e subir guias, andar sob grama e terrenos arenosos. A Lei de Acessibilidade garante o direito básico de ir e vir, porém as pessoas com deficiência encaram, diariamente, dificuldades para acessar — com segurança e autonomia — os espaços públicos e coletivos. As calçadas são mal projetadas ou malconservadas; parte dos transportes públicos ainda não segue as adequações legais. É nesse contexto que o Kit Livre desempenha um papel fundamental para garantir acessibilidade e preservação de direitos.

 

Na edição 2019 do Rock in Rio, o triciclo motorizado estará disponível gratuitamente

 

A inspiração para o negócio surgiu no mestrado em engenharia mecânica, ocasião em que Júlio Oliveto tinha o desejo de projetar equipamentos que pudessem melhorar a qualidade de vida das pessoas; a partir desse intuito, decidiu investir no desenvolvimento de uma tecnologia assistiva para o desenvolvimento de soluções voltadas a pessoas com deficiência. O projeto acadêmico se tornou um negócio quando o empreendedor ganhou um prêmio em dinheiro — integralmente aplicado para a criação da empresa. Para Júlio, a certeza de que estava no caminho certo veio na participação em uma feira do setor. Um pai cadeirante enxergou no equipamento a oportunidade de ensinar o filho menor a andar de bicicleta. Antes de perder os movimentos da perna, ele havia ensinado os dois filhos mais velhos. Com o Kit Livre, poderia retomar esse ritual familiar.

Os empreendedores realizam, atualmente, 60 vendas mensais do kit e de outros acessórios e equipamentos — sendo 65% dos clientes com idade entre 25 e 45 anos, que apresentam paraplegia ou tetraplegia ocasionadas por lesão medular, poliomielite, mielo, ELA e amputação de membros inferiores — e têm usuários em 24 Estados e em países como Argentina, Uruguai, Alemanha, Estados Unidos e Austrália. E as conquistas continuam. Na edição 2019 do Rock in Rio, o triciclo motorizado estará disponível gratuitamente para tornar o maior festival de música do planeta acessível.

Embora seja um mercado pouco explorado no meio do empreendedorismo, ainda há muitas oportunidades para utilizar a tecnologia assistiva para tornar cidades, produtos e serviços mais inclusivos, beneficiando especialmente os públicos mais vulneráveis por meio de inovações que olhem para as reais necessidades do ser humano por trás da tecnologia.

 

  • Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.
  • Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.
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