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As seis práticas para desenvolver a capacidade inovadora do empreendedor

Postado em 01 novembro 2019

A inovação se tornou a chave-mestra do empreendedorismo. Mas, existe uma fórmula simples para cultivar hábitos e práticas que possam desenvolver um comportamento inovador e propício à criatividade? No livro As 10 Faces da Inovação, Tom Kelley e Jonathan Littman defendem que para gerar inovações significativas é preciso observar e compreender o comportamento de seus clientes.

Na obra, Kelley – consultor da icónica empresa de design IDEO – aborda as dez personas de uma empresa que estimulam o pensamento criativo e que superam o negativismo capaz de sufocar a criatividade. Entre os perfis detectados pelo autor, figuram o antropólogo, o saltador de obstáculos, o arquiteto de experiências e o polinizador.

Nesse artigo, abordo a persona preferida de Kelley: o antropólogo. Na percepção do especialista em inovação, a preferência acontece porque essa personalidade traz novos conhecimentos e insights ao observar o comportamento humano e desenvolver profunda compreensão de como as pessoas interagem de maneira física e emocional com produtos, serviços e espaços.

Em entrevista, ele contou que descobriu esse perfil relativamente tarde na carreira; esse encontro aconteceu quando iniciou os trabalhos na IDEO e a equipe era formada por engenheiros – testando os produtos, fazendo-os cair a dois metros de altura para avaliar a durabilidade.

Em 1991, quando trouxeram um grupo de antropólogos, eles sentavam ao lado de lagos e riachos e observavam crianças pescando; depois voltavam e instigavam a equipe a pensar se o produto era realmente útil. “Percebi que tínhamos ótimos técnicos para resolver problemas, mas precisávamos saber qual problema resolver. O antropólogo é muito bom em sair a campo e encontrar o cliente com problemas; achar um humano que não está tendo uma boa experiência com o produto que desenvolvemos. Um antropólogo identifica o problema e os técnicos solucionam”, afirma o especialista.

Como líder em inovação, Tom Kelley visitou mais de 30 países; como executivo, liderou na IDEO áreas de desenvolvimento de negócios, marketing, recursos humanos e operações. Hoje, membro-executivo da Haas School of Business da UC Berkeley, tornou-se uma voz global potente na prática de colocar o ser humano no centro do processo.

Com afinidade maior com a persona antropólogo, ele destaca alguns hábitos desses profissionais que podem inspirar os empreendedores e empreendedoras a desenvolverem a criatividade e inovação no cotidiano do negócio.

Praticam o princípio Zen da “Mente do Principiante”

Mesmo com muita base educacional e experiência profissional, as pessoas que exercem o papel de antropólogo demonstram disposição pouco comum para deixar de lado o que “sabem” e olhar além das tradições – e dos próprios preconceitos. São pessoas que cultivam a sabedoria de observar com a mente aberta.

Abraçam o comportamento humano com todas as surpresas

São pessoas que não julgam – observam e demonstram profunda empatia. Quem estuda o comportamento humano durante toda a vida desenvolve um amor genuíno, indissimulável por observar e conversar com pessoas. As habilidades e técnicas da antropologia cultural podem ser aprendidas por qualquer um, mas os profissionais que se sentem atraídos para esse papel o consideram, em geral, intrinsicamente recompensador – o que é outra maneira de dizer que amam o próprio trabalho.

Fazem inferências, ouvindo a intuição

Os currículos das escolas de negócio das melhores universidades e o treinamento no trabalho no mundo das empresas focam o ensino no exercício das habilidades analíticas do lado esquerdo do cérebro. Aguçam os poderes do raciocínio dedutivo. Os antropólogos, ao contrário, não têm medo de se basear nos próprios instintos; eles desenvolverem hipóteses sobre as raízes emocionais do comportamento humano observado.

Buscam epifanias, desenvolvendo o senso de “Vuja De”

Todos conhecem aquele sentimento de déjà vu – a forte intuição de já ter visto ou experimentado algo antes, mesmo que jamais tenha deparado com a mesma coisa. Vuja De é o oposto e se trata do senso de ver algo pela primeira vez, mesmo quando já se tenha observado a mesma coisa ou situação muitas vezes antes. Aplicando esse princípio, os antropólogos desenvolvem a capacidade de “enxergar” o que sempre esteve lá, mas nunca foi realmente percebido. Estamos falando daquilo que os outros não conseguiram ver ou compreender, porque pararam de olhar muito cedo.

Mantêm listas de incômodos e carteiras de ideias

Os antropólogos trabalham um pouco como romancistas ou comediantes. Eles acham que as próprias experiências cotidianas contêm material com potencial – e anotam as ocorrências e situações que os surpreendem, sobretudo coisas que parecem sem sentido. As listas de incômodos se concentram no negativo, ou seja, nas coisas que o incomodam; as carteiras de ideias abrangem conceitos inovadores que possam ser imitados e problemas a serem resolvidos. Essa ferramenta pode aguçar a capacidade de observação e as habilidades como antropólogo.

Estão dispostos a procurar pistas na lata do lixo

Antropólogos buscam ideias onde é menor a probabilidade de que sejam encontradas: antes de os clientes chegarem, depois que saem, mesmo no lixo. Procuram onde o aprendizado se oculta; olham para além do óbvio; e buscam inspiração em lugares inusitados.

Na minha percepção, assumir esses hábitos e comportamentos – e adotar uma mentalidade de principiante –é fundamental em todos os momentos do ciclo de vida do empreendedor. Nesse contexto volátil que vivenciamos, marcado por rápidas mudanças, esse comportamento torna-se vital, não somente para que o negócio fique de pé, mas para que cresça e prospere, tanto financeiramente como no impacto social gerado.

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

 

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