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O futuro é sênior — e representa uma força positiva para a economia

Postado em 05 fevereiro 2020

No livro Viver Muito, Jorge Félix afirma que o envelhecimento da população é um fenômeno mundial: o número de pessoas com mais de 60 anos cresce a uma taxa de 2,6% ao ano, enquanto a população total do planeta cresce apenas 1,2%. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que em 2050 a população sênior global deverá alcançar a marca dos 2 bilhões.

No Brasil, levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que foi destaque de reportagem aqui no jornal O Estado de S. Paulo, aponta que a expectativa para esse mesmo ano (2050) é de chegarmos a 66,5 milhões de maduros, o que irá representar 29,3% dos brasileiros. Para se ter uma ideia desse salto, em 2010 esse recorte representava 10% da população.

Esse contexto demográfico é resultado do aumento da longevidade populacional e da queda da taxa de natalidade. Se por um lado esse tsunami prateado pode ser lido como um desafio — se a sociedade não se preparar para as demandas específicas do brasileiro sênior –, por outro representa uma força positiva para a economia; uma oportunidade para empreender e surfar a onda da economia da longevidade. Hoje, essa modalidade organiza a estrutura econômica para atender a setores emergentes que atuam com produtos e serviços voltados aos 60+.

Em 2020, a silver economy (economia prateada)como é conhecida nos Estados Unidos, deve movimentar US$ 15 trilhões, de acordo com levantamento do Bank of America Merrill Lynch. Na prática, essa é a terceira maior atividade econômica do mundo.

Dados do mapeamento Negócios da Longevidade — conduzido por Hype60+, Pipe.Social e Aging 2.0 São Paulo — mostram que no País o Estado de São Paulo concentra 59% das empresas com foco na economia prateada; Minas Gerais apresenta 14%; Rio Grande do Sul aparece com 6%; Rio de Janeiro com 5%; Bahia com 5%; Pernambuco e Ceará apresentam 4% e 1%, respectivamente. Um negócio de impacto que ilustra perfeitamente esse segmento é a Eu Vô.

Fundada em 2017 pelos irmãos Victoria e Gabriel Barboza, a Eu Vô oferece ao público maduro e a pessoas com dificuldade de mobilidade serviços de transporte e acompanhamento para as atividades cotidianas, mediante agendamento. A plataforma mobile e web oferece, ainda, opção de acompanhamento. O usuário cadastra as atividades recorrentes no aplicativo com data e horário, os motoristas agendam de acordo com a disponibilidade. Desde a criação, a iniciativa já realizou mais de 2 mil viagens em São Carlos e São Paulo.

O negócio de impacto social realiza treinamento especializado com os motoristas — o que garante uma prestação de serviços de qualidade. Para se candidatar ao posto de motorista parceiro da Eu Vô, o profissional deve ter carro próprio — sedan com quatro portas — com no máximo cinco anos de uso e CNH que permita exercer atividade remunerada, entre outras exigências.

Cumpridos todos os requisitos, os interessados devem concluir um treinamento realizado por uma equipe multidisciplinar formada por gerontólogos e profissionais da área da saúde. Com o serviço, a empresa espera diminuir o isolamento social sofrido por pessoas com mobilidade reduzida; aumentar a qualidade de vida e a autoestima desse público; e gerar renda para motoristas. Victoria faz questão de ressaltar que o propósito da empresa é justamente empoderar as pessoas com mobilidade reduzida a ter uma vida mais autônoma.

Voltando à obra Viver Muito, o livro alerta que o grande risco a ser evitado é transformarmos a conquista do envelhecimento em uma derrota para a sociedade. O País, de acordo com Jorge Félix, tem mais duas décadas para “habilitar-se a ser uma economia capaz de aproveitar o bônus demográfico”. Concordo com essa análise e acredito que os negócios de impacto social podem auxiliar nesse processo de enxergar a longevidade como uma conquista repleta de oportunidades.

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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