Dicas para apoiar negócios de impacto que promovem a mobilidade social ascendente

Dicas para apoiar negócios de impacto que promovem a mobilidade social ascendente

A Tese de Impacto pela Mobilidade Social aponta orientações práticas para as organizações que desejam apoiar negócios de impacto focados na temática

Fenômeno relativamente novo na história da humanidade, o conceito de mobilidade social se estabeleceu com o avanço das estruturas capitalistas e industriais. De forma bastante suscinta, ela é caracterizada pela possibilidade de indivíduos, ou grupos, transitarem entre diferentes classes e estratos sociais.

A mobilidade social ascendente seria um indicador de uma sociedade justa e equitativa — por permitir que as pessoas cresçam a partir das suas circunstâncias iniciais e alcancem a mobilidade crescente. Porém, em países marcados por desigualdades sociais e econômicas profundas, como é o caso do Brasil, essa capacidade de melhorar as condições de vida é seriamente comprometida. Uma série de obstáculos distancia as pessoas ou os grupos socioeconomicamente vulneráveis da possibilidade de alçar posições sociais mais elevadas. Essa realidade traz uma série de impactos negativos e sistêmicos, tanto na esfera individual quanto coletiva.

ara lançar luz a esse desafio e entender como os negócios de impacto podem endereçar soluções inovadoras para apoiar a mobilidade social dos brasileiros, a Fundação Grupo Volkswagem e a Artemisia — com apoio técnico do Instituto Veredas — produziram a Tese de Impacto pela Mobilidade Social — Caminhos de atuação dos negócios de impacto para a prosperidade socioeconômica no Brasil.

Em um artigo anterior (Estudo sobre mobilidade social aponta temas para atuação de negócios de impacto), abordei um recorte dos insumos dos primeiros capítulos do conteúdo, destacando o conceito e as alavancas encontradas para atuação de negócios que queiram gerar impacto positivo nessa temática. Dando continuidade à pensata, gostaria de explorar as orientações práticas para o apoio a esses negócios.

A primeira recomendação é criar condições para escalar e gerar impacto relevante, ou seja, chama a atenção para a importância de iniciativas voltadas a um apoio que atenda às necessidades específicas dos negócios de impacto em cada estágio de desenvolvimento — da atração de capital (um dos maiores desafios em qualquer fase da jornada empreendedora), passando por assistência técnica, suporte para acessar mercados e criação de uma estrutura que traga autonomia para o empreendedor (sem a pressão excessiva por retornos financeiros).

Nesse último, fala-se do equilíbrio de apoiar empreendedores com capital paciente, estabelecendo expectativas ajustadas à natureza das iniciativas e permitindo-lhes realizar testes para o amadurecimento do negócio. Ou seja, uma autonomia prática, no qual o empreendedor tenha liberdade para desenvolver e validar o seu modelo ao mesmo tempo em que mantém um alinhamento contínuo com os objetivos de impacto.

A segunda recomendação tem por foco o processo de seleção de negócios a serem apoiados. Para tal, a escolha deve levar em conta a qualificação e a experiência do time de gestão; é essencial que esses profissionais conheçam profundamente o público-alvo do negócio, ou seja, os fundadores, por meio de vivências diretas, precisam entender as dores e as necessidades das comunidades que desejam servir. Esse conhecimento tático é a chave que torna esses líderes mais aptos a desenvolver soluções relevantes e eficazes. Ainda nessa seara, é destaque o equilíbrio entre o impacto do negócio e a escala. Diversificar o apoio entre negócios escaláveis e os focados em soluções de impacto territorial contribui para maximizar o impacto social.

Em conversa com George Ferreira — gerente de Desenvolvimento de Negócios da Artemisia e um dos coordenadores da Tese — um dos temas que despontou foi sobre as recomendações para a escolha de modelos de negócios a serem apoiados. A seleção deve considerar aspectos que equilibrem impacto, viabilidade econômica e potencial de escala. Abaixo, os principais tópicos a serem observados por organizações e iniciativas interessadas em dar suporte a uma nova geração de empreendedores de impacto focados em promover a mobilidade social no Brasil.

Impacto entregue diretamente pela proposta de valor

Nesse item, vale observar que soluções que promovem acesso imediato à possibilidade de mobilidade social ascendente — como a conexão com vagas no mercado de trabalho ou a profissionalização de pequenos produtores — tendem a gerar impactos mais rapidamente observáveis e mensuráveis no curto ou no médio prazo. No entanto, é igualmente importante considerar iniciativas que visem a mudanças estruturais, cujos efeitos se manifestam ao longo de períodos mais extensos, a exemplo da Educação. Um ponto importante é garantir que a solução não esteja mirando apenas na melhoria temporária na vida dos beneficiários. A transformação precisa ser duradoura.

Soluções contextualizadas

Produtos ou serviços integrados às rotinas existentes dos clientes e usuários, que não exigem grandes esforços de implementação ou uso, reduzem a fricção de adesão. Essa facilidade de integração aumenta a probabilidade de escalabilidade do impacto, permitindo que o negócio alcance um público maior de forma mais eficiente.

Conhecimento profundo do público-alvo

Empreendedores que compreendem detalhadamente seu público-alvo — dores, necessidades, rotinas e comportamentos — e incorporam na cultura organizacional a prática de entender e acompanhar seus beneficiários aumentam as chances de adequação da solução ao mercado e que promovem a inovação contínua.

Comunicação simples

Negócios que comunicam seus diferenciais de forma clara, simples e acessível tendem a engajar mais o beneficiário final, aumentando a probabilidade de gerar impacto significativo. A clareza na comunicação facilita o entendimento do valor proposto, incentivando a adoção e o engajamento contínuo.

Modelos de negócio

B2B e B2B2C | Negócios que adotam esses modelos tendem a desenvolver negócios mais sustentáveis, pois os custos de aquisição de clientes podem ser mais baixos em comparação com o B2C. Os modelos permitem acesso a uma base de clientes maior por meio de parcerias com outras empresas, facilitando a escalabilidade.

B2C | Embora este modelo possa ser atraente para alguns segmentos, ele apresenta desafios significativos em termos de custos de aquisição de clientes e dispersão do público-alvo. Os negócios que optam por este modelo devem implementar estratégias eficientes de marketing digital, construção de comunidades e engajamento para desenvolver unidades econômicas saudáveis em escala.

B2G | Negócios que atuam neste modelo enfrentam desafios como burocracia, falta de padronização e longos ciclos de vendas. Entretanto, aqueles que desenvolvem estratégias inovadoras (o uso de grants para financiar evidências de impacto e adequação de solução a territórios específicos no início de suas jornadas) podem superar essas barreiras de venda e desenvolver um modelo de negócio sustentável.

Estrutura de custos e precificação

Negócios que consigam desenvolver uma estrutura de custos enxuta podem adequar seu tíquete médio à capacidade de pagamento do cliente e, ao mesmo tempo, manter-se financeiramente viáveis. Esse é um grande desafio e é pouco provável que um negócio de impacto se sustente financeiramente e cresça sem algum grau de inovação — seja em modelos de negócio, processos, estratégias, produtos, precificação, entre outros.

Cultura de inovação

Negócios que cultivam uma cultura de inovação e agilidade, voltada para o teste, ajuste e aprimoramento contínuo de soluções, tendem a utilizar recursos de forma mais eficiente e a manter-se relevantes em seu segmento. A capacidade de testar rapidamente hipóteses de mercado e adaptar-se com base em feedback constante é crucial para negócios de impacto social, que frequentemente precisam responder a mudanças diante das necessidades do público-alvo.

Aos interessados em saber mais sobre o tema, recomendo a leitura da íntegra da Tese de Impacto pela Mobilidade Social — Caminhos de atuação dos negócios de impacto para a prosperidade socioeconômica no Brasil, que já está disponível para download.

Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.


[Foto: George Ferreira, um dos coordenadores da Tese de Impacto pela Mobilidade Social. Crédito: Marco Torelli]

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