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O The Boat Challenge e o barco de ideias e startups que navegou pelo Rio Amazonas

Postado em 01 março 2018

Imagine um barco cheio de soluções inovadoras flutuando sobre as águas do Rio Amazonas. Foi exatamente isso que aconteceu durante o Coca-Cola Open Up – The Boat Challenge, programa criado para auxiliar startups que buscam impulsionar o desenvolvimento socioambiental da Amazônia. Durante três dias, os convidados não apenas flutuaram, mas tiveram a oportunidade de se aprofundar em seus modelos de negócio e na percepção do impacto que podem causar na região e em seus habitantes.

O barco navegou de Parintins a Manaus, de 26 a 28 de junho, com discussões a bordo sobre desafios nos setores de água, agricultura sustentável, sociobiodiversidade, saúde, bem-estar, entre outros. A viagem foi o momento de encontro entre empreendedores, mentores e convidados, que trabalharam juntos para entender melhor os principais pontos que podem ser aprimorados em cada negócio e quais os próximos passos para garantir um impacto local mais efetivo. O processo teve como facilitadora a Artemisia, organização sem fins lucrativos pioneira no fomento dos negócios de impacto social no Brasil, assim como a criação de toda a metodologia.

Mailson Gondim e Vagner de Menezes, que moram na comunidade Bauana, próxima ao município de Carauari (AM), de 25 mil habitantes, participaram da viagem. A cidade deles fica a 780 quilômetros de Manaus em linha reta, ou a 1.676 quilômetros por via fluvial. A única maneira de chegar à região é de barco ou avião. Mesmo distantes de tudo, os dois empreendedores criaram uma startup, a Unidade de Beneficiamento de Produtos Florestais (UBPF), que busca agregar valor aos produtos e ativos da Amazônia, como a andiroba e o açaí.

A UBPF contribui para o aumento de renda de pequenos produtores, uma vez que recebe pedidos de grandes empresas e faz o repasse a diferentes grupos, oferecendo mais oportunidades de trabalho. Seu trabalho é conectar pequenos produtores e grandes compradores, desenvolvendo ainda todo o processo necessário, desde a coleta das sementes e secagem até a entrega do produto final. Ou seja: parte da matéria-prima bruta vinda do extrativista e vende o produto processado para empresas.

O negócio de Gondim e Menezes foi um dos três selecionados pelos próprios participantes como os de maior destaque, levando-se em consideração o potencial de impacto e modelo de negócio. Assim como as empresas Minitrat e 100% Amazônia, receberá mentorias pontuais para dar continuidade ao processo de desenvolvimento do negócio, oferecidas pela Artemisia.

Durante o período de aprendizado, as três iniciativas também terão oportunidades de desenvolver uma rede de contatos. “Com esse evento, ganhamos muita experiência na área de gestão e busca de clientes, e a troca de experiências com outros empreendedores é de grande importância para qualquer negócio. Estou levando para minha região muitos aprendizados que recebemos de todos os mentores”, contou Gondim.

Produto simples e acessível, a Minitrat é uma estação residencial de tratamento de esgoto para reuso da água. O aparelho, que substitui a fossa séptica com mais eficiência e segurança, foi criado por Flávio Sisti e Ricardo Azevedo. “Espero que a gente consiga retribuir para a sociedade, principalmente para a região Amazônica, um pouco do que a gente está levando na mente e no coração desse evento surpreendente. Além de ter sido nesse lugar incrível, o programa promoveu uma interação que trouxe crescimento e progresso para nossos projetos. Estamos preparados para esse desafio”, afirmou Azevedo

Já a 100% Amazônia é especialista em produtos de base florestal não renovável não-madeireira, provenientes da biodiversidade da Amazônia. O negócio promove a coleta da matéria-prima, principalmente o açaí, por meio de cooperativas locais, e ajuda a transformá-la em ingrediente para as indústrias internacionais de suplementos alimentares, bebidas e cosméticos. A empreendedora Joziane Alves viu o The Boat Challenge como um momento de grande troca de conhecimento e experiência. “Hoje a gente vive uma transição. Não existe mais o ‘eu’ isolado, mas sim uma interdependência dos sistemas, exatamente o que a gente fez no evento. Se você não compartilhar, não está mais nesse momento. O que funcionava antes faz parte do passado. Agora estamos em uma nova era, e não temos outra escolha que não seja a união para fazermos um mundo melhor”, resumiu.

Foram selecionadas apenas startups em estágio mínimo de protótipo, ou seja, que já tenham um produto ou serviço desenvolvido e em fase de testes. As 15 participantes foram desafiadas durante os três dias a repensar os próprios negócios para avançar em suas atividades.

“Está surgindo uma nova matriz econômica na região com várias iniciativas sustentáveis para manter a floresta em pé. Estamos há mais de 25 anos no Amazonas, com a nossa fábrica de concentrados em Manaus, e, por isso, temos um compromisso de colocar ações da Coca-Cola Brasil a serviço do desenvolvimento do estado”, disse Pedro Massa, diretor de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, área responsável pela organização da viagem.

Diretora-executiva da Artemisia, Maure Pessanha diz que, desde 2004. a organização apoia negócios com real potencial de causar impacto na vida de milhares de pessoas de baixa renda. “Há mais de uma década, a Artemisia apoia a geração de negócios de impacto social no Brasil. Identificamos no nosso trabalho de busca e seleção alguns temas críticos para o país e com número muito incipiente de negócios. Por isso, fomentamos soluções que atendam aos desafios em temas específicos como, por exemplo, os da região Amazônica.

A executiva acrescenta que o objetivo do programa foi unir forças das duas organizações — Artemisia e Coca-Cola Brasil — de forma a contribuir para a criação de bases para um ecossistema de negócios de impacto social na região.

Os mentores, que compartilharam experiências e opiniões com os empreendedores novatos, também saíram impactados. Renata Puchala, gerente do Programa Amazônia da Natura, se surpreendeu com a qualidade dos negócios apresentados. Ela pontuou que essa foi uma rara oportunidade para reunir olhares diferentes em nome de um mesmo objetivo: abraçar uma região que carece de projetos de impacto social. “Sabemos que ainda temos um longo caminho para alcançar o mundo ideal, mas vemos que temos alternativas. Saio do Boat muito otimista por ver pessoas capazes de criar negócios que contribuirão para uma Amazônia e um mundo melhor”, observou.

Para Vanderleia Radaelli, especialista sênior em Ciência, Tecnologia e Inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que é apoiador da ação, o The Boat Challenge veio em uma hora essencial para o desenvolvimento desse tipo de negócio. “Fico muito feliz ao ver uma grande instituição como a Coca-Cola Brasil tocada por essa causa. Há o surgimento de novos modelos de negócio e que também precisam ser incorporados como políticas públicas”, afirmou Vanderleia. A missão do BID, conta Vanderleia, é melhorar a vida das pessoas assim como todos os negócios apresentados que tenham impacto direto na população. “Tive a oportunidade de conhecer trabalhos de forte impacto social sendo desenvolvidos de maneira adequada e inclusiva”, completou.

(Crédito:  José Roberto Couto)

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