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Empreendedorismo de impacto feminino: a base de superação de preconceitos

Postado em 18 março 2019

Os negócios de impacto social estão empoderando mulheres de diferentes maneiras, de acordo com o relatório do British Council. Para 75% das empreendedoras entrevistadas em cinco países, ter aberto seu próprio negócio despertou um sentimento de autovalorização; para 56% delas, a iniciativa trouxe o direito de fazer as próprias escolhas — sobretudo, para as mulheres com menor poder aquisitivo. Uma pesquisa da Thompson Reuters Foundation, em contrapartida, aponta o Brasil como o pior lugar para uma empreendedora social entre 44 países. As barreiras vão de menor acesso a financiamentos às pressões sociais, culturais e familiares. O preconceito e a discriminação têm um peso substancial sobre os ombros femininos. Mas, a despeito dos desafios, elas continuam avançando e construindo negócios inovadores.

Um que exemplifica esse avanço é a Celebrar. Fundada em 2015 pela tríade feminina Camila Florentino, Patrícia Cella Portes e Monna Cleide Santos, a produtora virtual de eventos reúne uma comunidade online de fornecedores de serviços para eventos. A plataforma reduz a complexidade e o tempo gasto nas cotações de preços, consultas de disponibilidade e contratação; eleva, ainda, a eficiência do mercado ao dar visibilidade aos fornecedores, que são, em sua grande maioria, microempreendedores. Como resultado, aumenta a renda desse público e proporciona um marketplace de valor justo — tanto para o cliente, quanto para o fornecedor.

Para se ter noção do potencial da solução, a indústria de eventos corporativos movimenta a cifra anual de R$ 67 bilhões no Brasil, sendo a cidade de São Paulo responsável por R$ 16,3 bilhões. Em contrapartida, o mercado de eventos é pulverizado — composto por serviços de diferentes fornecedores especializados sendo a grande maioria deles composta por microempreendedores individuais que sofrem com a falta de recursos e qualificação em gestão. Na outra ponta, estão as agências tradicionais, praticando a assimetria de mercado com cobranças responsáveis por uma diferença de 50% entre o valor pago pelo organizador e o recebido pelos fornecedores finais.

Na análise do impacto social, as empreendedoras têm um potencial enorme para apoiar fornecedores da baixa renda. Do R$ 1,6 milhão transacionado pela Celebrar, 75% foi vendido por residentes das periferias de São Paulo e 82% dos vendedores são microempreendedores individuais (MEIs). Com a atuação da plataforma, há comprovado aumento no volume de serviços prestados pelos fornecedores (mulheres, na maioria), apoio para a capacitação e formalização, e aumento na renda no volume de serviços vendidos.

“Essa é uma das características da ascensão econômica feminina: investir na qualidade de vida da família”

A motivação do negócio surgiu da atuação de Camila no mercado de eventos e a insatisfação por perceber que os valores recebidos representam, muitas vezes, menos do que os que eram pagos pelos organizadores. Cursando a faculdade de Lazer e Turismo, na Universidade de São Paulo (USP), ela iniciou uma pesquisa acadêmica para saber como a tecnologia poderia impactar nessas relações, regulando a oferta e demanda.

O estudo foi a origem do negócio de impacto social que hoje conta com 720 fornecedores cadastrados na região metropolitana de São Paulo — gente que atua com alimentação e bebidas; atrações (bandas e DJs); comunicação; audiovisual e iluminação; cenografia e decoração; segurança e limpeza. Desses profissionais, 60% já realizaram vendas na plataforma, mais de 3 mil serviços foram vendidos, mais de 350 eventos comprados por grandes empresas. A solução tem uma taxa de 60% de recorrência nas compras.

Vanessa é uma das fornecedoras cadastradas. Moradora da região periférica de Taboão da Serra, já realizou mais de 220 vendas na plataforma com rentabilidade equivalente a R$ 800 mil no ano. Antes da Celebrar, o rendimento era de R$ 120 mil. A empreendedora trabalha com os irmãos e a melhoria na vida da família é evidente. Vanessa alugou um espaço para ser sede da empresa, contratou cinco pessoas e comprou um carro para o pai. Aliás, essa é uma das características da ascensão econômica feminina: investir na qualidade de vida da família.

“Um investidor perguntou se ela estaria disposta a congelar os óvulos, pois não teria tempo para filhos se quisesse alcançar bom desempenho”

Camila Florentino — que começou o negócio com investimento próprio de R$ 10 mil, conquistados fazendo mais de mil eventos em 2014 — tem planos para expandir o Celebrar e alcançar mais fornecedores e clientes. Sobre ser mulher e jovem, ela diz que demorou a sentir os vieses inconscientes de gênero; conta que lidou com os desafios como parte da prática empreendedora. Pensou dessa forma até que sentiu o peso do preconceito. Em uma rodada com investidores, um deles perguntou se estaria disposta a congelar os óvulos, pois na próxima década não teria tempo para ter filhos se quisesse alcançar bom desempenho.

A pergunta ilustra os desafios das empreendedoras brasileiras, em questões como maternidade que parecem — aos olhos de investidores — incompatíveis com bons resultados de negócios. E a resposta de Camila mostra como as empreendedoras de impacto social lidam com o preconceito. Mesmo desnorteada com a pergunta, agradeceu e decidiu buscar outros tipos de parcerias mais alinhadas. O insight fez com que reafirmasse o propósito do Celebrar — contribuir para melhorar a vida das pessoas — e, para isso, estar ao lado de parceiros que compartilhassem essa visão. E é óbvio que ela encontrou!

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil. (Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor- Estadão PME).

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