Em vez de esperar pela próxima inovação, procure a gambiarra

Por Renato Kiyama | Março - 2014

No mundo das startups, vale a máxima de que primeiro é preciso identificar um problema para depois desenvolver a solução. Isso pode dar a direção errada aos aspirantes a empreendedores de negócios de impacto social, porque eles tendem a procurar problemas que são importantes para si mesmos, identificados sobre bases que eles valorizam. Por isso, é comum esses empreendedores definirem carências muito genéricas para atacar – como a falta de saúde ou a educação de má qualidade – e desenvolverem soluções a princípio inovadoras, mas sem olhar para o que os potenciais beneficiários já estão fazendo.

Uma gambiarra, por sua vez, não é um problema, e sim uma solução. Quando uma necessidade não atendida é grande e urgente, as pessoas tentam supri-la por si mesmas de forma improvisada e, muitas vezes, bastante criativas. Ao identificar uma dessas gambiarras, o empreendedor deve se perguntar como ele conseguiria substituí-la por um produto ou serviço mais eficaz e mais barato.Um exemplo interessante dessa situação foi o processo vivido pela Embrace. Quando estive na Índia, em 2010, tive a oportunidade de conhecer brevemente esse caso. Tudo começou com um grupo de alunos da Universidade de Stanford que recebeu o desafio de desenhar uma incubadora neonatal que custasse 1% do valor de um aparelho tradicional e contribuísse para sanar um grave problema de saúde: os bebês prematuros que morriam todos os anos em países em desenvolvimento.

Uma das hipóteses levantadas pela equipe era a de que as incubadoras eram inacessíveis à população dos países pobres, por isso seria necessário desenvolver uma tecnologia de baixo custo. Em uma visita ao Katmandu, porém, eles perceberam que havia um número considerável de incubadoras novas e de boa qualidade nos hospitais.

Os casos mais graves de mortes de prematuros ocorriam nos vilarejos rurais, distantes das grandes cidades, onde não havia energia elétrica e os hospitais eram rudimentares. Como bebês prematuros são incapazes de regular sua própria temperatura, eles morriam no caminho para o hospital, nos braços de suas mães.

As mães, por sua vez, tentavam evitar a situação por meio de uma gambiarra: enrolar os bebês em panos e deixá-los perto de garrafas PET com água aquecida. Uma solução ineficaz e, por vezes, perigosa para o bebê.

A alternativa encontrada pelo time da Embrace foi fazer uma miniatura de saco de dormir, que acomodava em seu interior uma bolsa térmica com uma cera que, quando aquecida, derretia a 37oC. Assim, ela mantinha a temperatura do bebê constante durante horas.

Aqui no Brasil, o processo não é muito diferente. A Vivenda é uma startup que nasceu em 2013 para substituir a gambiarra mais conhecida do país: o “puxadinho”. São aquelas eternas reformas feitas por quem mora em favelas para tentar resolver questões funcionais, estéticas e, principalmente, de saúde – o mofo é muito comum devido à falta de ventilação e de iluminação inadequada.

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Fernando Assad, Igiano Lima e Marcelo Zarzuela, empreendedores da Vivenda

A casa é uma prioridade na vida de ricos e de pobres. A grande diferença é que uma pessoa privilegiada paga muito menos por uma reforma do que uma pessoa de baixa renda. Como isso é possível? A solução seria encomendar um projeto de reforma a profissionais e executá-lo. Pessoas de baixa renda, no entanto, não conseguem adquirir esse serviço, por isso acabam recorrendo a soluções improvisadas, como a autoconstrução.

No processo de criação da Vivenda, os emprendedores observaram que um morador de favela gastava três vezes mais que o necessário para realizar uma reforma. Isso acontecia porque em um mês no qual sobra um pouco de dinheiro, a pessoa compra um saco de cimento. Em outro, sobra mais um pouco e ela compra mais um saco. Aí vem a chuva e todo o material é perdido. A reforma vai ficando muito cara e demorada quando é feita em partes.

Por isso, a solução desenvolvida pela Vivenda foi estruturar os serviços de reforma em kits padronizados. O cliente não compra uma reforma da casa inteira, e sim cômodo por cômodo.

Os kits foram estruturados para diminuir o nível de insalubridade das moradias e aumentar sua qualidade estética. São entregues em 15 dias e custam de R$ 1.500 a R$ 4.000, que podem ser parcelados em até 12 vezes. A redução drástica nos custos foi alcançada por meio da padronização do processo, da mão de obra e da matéria prima.

Artigo publicado originalmente no site da Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

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