Tese de Impacto em Serviços Financeiros e tendências para startups fintech

Produção: Printec Comunicação/ Artemisia

A dificuldade de acesso à rede bancária é uma das principais razões para a não bancarização da população de baixa renda no Brasil. A falta de transparência dos produtos financeiros associada à cultura de consumo no país leva milhões de brasileiros a um endividamento excessivo: 14 milhões de famílias comprometem mais de 30% da renda mensal com o pagamento de dívidas. Os serviços financeiros oferecidos pelos bancos não atendem às necessidades das classes C, D e E, sendo que a oscilação de renda – grande parte regida pelo trabalho informal e baixa rentabilidade – está entre as principais barreiras para que esse público se torne correntista; cerca de 40% dos brasileiros não são bancarizados. Soma-se a esses fatores um índice: 70% de reclamações contra os bancos estão relacionadas à falta de informação.

Hoje, os correspondentes bancários são o principal ponto de contato da baixa renda com serviços financeiros, presentes em praticamente todos os municípios; somente 26% deles estão autorizados a abrir contas; 68% recebem pagamentos; e 62% encaminham empréstimos e financiamentos. O cartão de crédito aparece, desde 2007, liderando o ranking das formas de pagamento para a baixa renda. Essas são algumas da análises presentes na Tese de Impacto em Serviços Financeiros, conduzida pela equipe da Aceleradora da Artemisia.

“A Artemisia tem por objetivo acelerar e apoiar empresas em estágio inicial com o potencial de gerar alto impacto na população de baixa renda, portanto, buscamos compreender profundamente os setores nos quais atuamos – saúde, educação, serviços financeiros e habitação – e identificar oportunidades. A Tese de Impacto de Serviços Financeiros foi desenvolvida a partir de uma análise criteriosa do acesso e comportamento desse estrato populacional. A proposta foi entender quais são os desafios estruturais enfrentados pela população em relação aos ativos financeiros; as diretrizes e programas governamentais para o setor de finanças; os principais mercados, tendências, players e características marcantes”, detalha Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia.

A partir desta análise, a equipe da Aceleradora identificou oportunidades para o surgimento e consolidação de startups que geram um impacto positivo a partir da inclusão financeira por meio de base tecnológica. Cientes dos novos tempos que virão, os bancos contam com a barreira das regulamentações, que mantêm startups, negócios de impacto social e eventuais concorrentes afastados do mercado. O mobile payment precisa de instituição bancária parceira para operar no Brasil, assim como peer-to-peer lending, por exemplo. Enquanto isso, em outros países, a desburocratização resulta no surgimento de alternativas interessantes, a exemplo da Lenddo – que oferece financiamentos com base em reputação social, desviando dos bancos uma geração de clientes nas Filipinas, México e Colômbia; um negócio de impacto social que está empoderando economicamente a classe média dessas nações.

Nos Estados Unidos, uma das startups mais promissoras é a Quippi, usada por imigrantes mexicanos para o envio de dinheiro para os familiares. A operação é bastante simples: o usuário adquire um cartão eletrônico para o familiar utilizar no México, no qual “deposita” a quantia em dólar que será revertida na moeda local. O pagamento equivalente ao depósito é feito por cartão de crédito, débito ou por código de barras enviado via celular, pago em qualquer loja da rede 7-Eleven. O serviço conta com mais de 40 mil usuários.

No Brasil, os números das fintechs são pequenos diante da tendência global. Pesquisa conduzida pela FintechLab revela que o país conta com 130 empresas com atuação em meios de pagamento, gerenciamento financeiro, empréstimos e negociação de dívida, entre outros serviços. Nos Estados Unidos, a estimativa é que existem pelo menos 2 mil startups de serviços financeiros. Dados da publicação The Economist mostram que fundos de investimento aplicaram US$ 15 bilhões em fintechs ao longo de 2015. No Brasil, a FintechLab estima que foram investidos, no ano passado, R$ 200 milhões nessas empresas; em 2016 esse montante pode chegar a R$ 450 milhões. Em curto prazo, cinco anos, as fintechs podem tomar, em média, 23% dos negócios que hoje são conduzidos por instituições financeiras ao redor do mundo.

 

Inovação aberta

Em 2014, na Ciab Febraban, especialistas se revezavam para alertar sobre as inovações que seriam introduzidas por startups e que sinalizavam uma mudança disruptiva trazida pelas fintechs. A partir daí, as startups passaram a ser tratadas como alternativa dos grandes bancos para diminuir a inércia de inovação dentro das organizações e, por consequência, diminuir riscos de perder margens e aumentar receitas com propostas diferenciadas. Por essas razões, muitos bancos têm se associado a startups. As fintechs, em sua maioria, têm ampla capacidade de inovação, de apresentar soluções e ter agilidade de manobra – mas dependem dos bancos para abrir portas e implementar serviços e produtos por conta da regulamentação, necessidade de tração/escala e capital. Por outro lado, bancos mitigam riscos por trazer para perto inovações; essas instituições buscam acesso a clientes jovens ou foco de novas ações.

“Banco do Brasil e Bradesco, por exemplo, criaram novo banco voltado para a população de baixa renda”, analisa Renan Costa Rego, gerente de Aceleração da Artemisia. O executivo acrescenta que o discurso de “guerra contra os bancos” se transformou em “parceria com os bancos”. Nos Estados Unidos, essa cooperação está bem estabelecida, enquanto que no Brasil se encontra em um estágio inicial, com destaque para iniciativas como o Cubo (Itaú) e InovaBRA (Bradesco).

Segundo Renan Costa Rego, as parcerias e investimentos devem ser encarados pelos empreendedores com certa reserva, já que revolucionar o setor e reduzir de forma significativa os custos de transação para o cliente final não parecem ser objetivos dos bancos. “Não há dúvida de que as startups fintech têm que lidar com os bancos, pois para muitas das atividades financeiras no Brasil são exigidas a atuação de uma instituição regulamentada pelo Bacen. Pelo fato dessa regulação e pelo mercado ser extremamente concentrado é pouco provável que alguma startup consiga crescer sem sofrer pressão ou boicote de bancos. Nesse sentido, os empreendedores acabam fechando as parcerias com os bancos para garantir que o negócio não apenas cresça, mas que não morra. O custo de aquisição de clientes é muito alto para startups e os bancos já os têm em sua base, junte isso com dinheiro e influência nos meios regulatórios e você verá como um banco é sedutor para o empreendedor”, avalia o executivo.

De acordo com a análise da Artemisia, as empresas de tecnologia têm tomado o lugar dos bancos por uma série de questões e pela própria evolução do comportamento do consumidor. Alibaba (China), Baidu (China) e Lendoo (Filipinas) são alguns dos exemplos desta movimentação. Vale ressaltar que o sistema bancário tem por base uma montanha de dados; informações que essas empresas também têm pelo volume gigantesco de operações. Os bancos estão cada vez mais online, com foco na retirada de clientes das agências e expansão para o meio virtual, mais escalável e rentável. Essas instituições vêm perdendo força pela alta quantidade de regulação e burocracia – 71% dos americanos dizem preferir ir ao dentista do que a um banco; um terço dos norte-americanos, nascidos a partir de 1980, esperam contar com serviços financeiros com tecnologia, em substituição aos bancos.

“A internet tem feito empresas de tecnologia analisar melhor os dados do que os sistemas tradicionais dos bancos, além de empoderar o usuário final/cliente com informações em tempo real, atualizadas e devidamente triadas para uso. Muitos bancos não emprestam para pequenas empresas, deixando um mercado aberto para startups de tecnologia, que têm novas iniciativas para diminuir o risco, peer-to-peer lending, por exemplo”, avalia Maure Pessanha.

Novos negócios: tecnologia, impacto e tendências

Na Artemisia, os serviços financeiros contemplam entre 5% e 9% dos negócios prospectados nos últimos dois anos pela equipe de Busca e Seleção da Artemisia; hoje, a organização conta com oito negócios acelerados deste setor – 10% dos 79 negócios do portfólio da organização.

Na avaliação da equipe da Artemisia  a tendência é que as transações digitais cresçam ainda mais, já que criam uma forma mais simples e barata de pagamentos, tendo como alvo as bandeiras de cartão de crédito no futuro próximo. É importante ressaltar que a maior parte dos clientes não conhece os caixas ou gerentes de banco – que oferecem produtos não diferenciados ou personalizados; cobram juros altos; impõem tarifas; e fazem o favor de guardar o dinheiro do correntista. Os bancos vêm perdendo margens e alguns mercados não são acessados por eles; em contrapartida, startups fintechs chegam com melhores análises que empoderam os usuários e pequenos empreendedores. 

Quando o tema recai para oportunidades para empreendedores de impacto social focados no setor de serviços financeiros, destacam-se produtos e serviços como microsseguro, mobile payment, cartão pré-pago e microcrédito.  

O microsseguro é definido como a proteção financeira fornecida por provedores autorizados e oferece produtos para riscos específicos em troca de pagamento de prêmios proporcionais às probabilidades e aos custos dos riscos envolvidos. Com regulamentação efetivada em 2012, os microsseguros são operados, hoje, por grandes seguradoras. Uma das empresas aceleradas pela Artemisia, a ToGarantido, é pioneira na oferta de microsseguros para baixa renda. “Ao contrário do que se possa pensar, a população de baixa renda já é consumidora do microsseguro e não sabe disso. Ocorre que os valores estão embutidos nas taxas do cartão de crédito, mesmo quando não são usados. Os serviços de microsseguros que têm valor percebido para o público de baixa renda são, por exemplo, seguro para motoboy, serviços funerários e residencial. O impacto reside, justamente por auxiliar na redução da vulnerabilidade dessa população. Quando morre um familiar, por exemplo, é muito difícil para a baixa renda arcar com os custos do funeral. Este é o caso de uma oportunidade para o microsseguro”, avalia Renan Costa Rego.

O Mobile Payment oferece serviços financeiros e bancários com o apoio de telecomunicações móveis, tendo por escopo ofertas customizadas para as transações. OlhaConta, negócio de impacto social acelerado pela Artemisia, é um dos exemplos de Mobile Payment. Criada em 2013 por Samar Sleiman, é a primeira empresa de tecnologia mobile banking do Brasil focada em usuários que não têm conta bancária. A proposta central é baseada em uma tecnologia que disponibiliza à população não bancarizada uma série de serviços financeiros via celular, como transferências de dinheiro, pagamento de contas, compras no varejo, operações de poupança.

O microcrédito é a modalidade de financiamento destinada a pequenos empreendimentos, que se caracterizam pelo reduzido contingente de mão de obra e capital envolvido. A Biva, também acelerada pela Artemisia, ilustra perfeitamente esse modelo de negócio. Primeira plataforma de empréstimo peer-to-peer online, adequada ao sistema financeiro brasileiro, a Biva une pessoas que desejam investir a pequenas e médias empresas que buscam empréstimos; tudo de forma simples e descomplicada. Pode ser utilizada como investidor – que aplica seu dinheiro em diversos projetos e os acompanha ao longo do tempo – ou como tomador de crédito (que realiza todas as etapas do processo de empréstimo dentro da própria plataforma).

A questão da transparência e disseminação de informações de qualidade – que aparecem como demanda da baixa renda na Tese de Impacto – é a matéria-prima da Konkero, o maior portal independente de finanças pessoais no Brasil. É um guia online com conteúdo que traz informações sobre produtos financeiros de forma transparente e isenta para os seus usuários. O conteúdo é gratuito e o portal se monetiza com publicidade e links patrocinados.

Relacionados