Como implantar inovações na gestão pública da saúde?

Têm surgido inúmeras e interessantes inovações na área de Saúde no Brasil e no Mundo. Diversos novos aplicativos e soluções tecnológicas, negócios de impacto social emergentes e cada vez mais investidores (de impacto e tradicionais) alocando recursos para o campo. Há um pouco de tudo nestas inovações – visam ampliar, complementar e qualificar a oferta pública. Talvez o exemplo mais visível seja o fenômeno das clínicas populares (ou policlícinas*). Crescem de forma bastante forte à luz das diversas lacunas do SUS no que diz respeito às consultas. Parte destas clínicas são tão somente nicho de mercado, afinal, a periferia e a classe C entraram de vez no radar das empresas. Parte delas visa contribuir para gerar impacto social para estes grupos sociais, considerando seus desafios cotidianos de acesso ao SUS.

Há outras inovações que se encaixam mais explicitamente no SUS, e, portanto, requerem um alinhamento mais coeso com o poder público. Exemplo: a Tolife oferece soluções de hadrware e software para classificar todos os pacientes de unidades hospitalares (classificação de baixa, média e alta gravidade), visando facilitar a gestão interna da unidade. Para se inserir num hospital público, este negócio de impacto social precisa superar os inúmeros desafios burocráticos para contratualização com o Estado. Superada esta etapa, precisa ainda contar com boa dose de sorte para receber as parcelas do seu contrato, realidade infelizmente presente em organizações que têm contratos vigentes com o SUS.

Acreditamos que haja consenso no entendimento de que o Estado, em geral, é bastante lento e pouco aberto a inovações em saúde. Há práticas interessantes no interior do Estado, como, por exemplo, a EBSERH (estatal que administra os hospitais universitários). Entretanto, os ritmos do Estado e da iniciativa privada são muito díspares, colocando esta última quase sempre numa velocidade mais acelerada que o poder público.

Estimular e implementar inovações em saúde no interior do Estado pressupõe enfrentar alguns desafios. Vou destacar aqui apenas um desafio, focado no financiamento destas iniciativas. A dimensão financeira deste tipo de relação – setor privado e Estado – com foco na implementação de inovações em saúde. Há, a grosso modo, três caminhos para esta questão ser trabalhada:

  • O negócio contratualiza diretamente com o Estado: modelo de B2G (business to government). Neste caso, precisa passar pela via sacra da Lei de Licitações ou encontrar outros caminhos legais de contratualização, por exemplo, via uma OS (Organização Social).
  • Uma terceira organização financia a inovação para ser implementada no interior do Estado: exemplo, uma Fundação empresarial financia uma consultoria para implementar, em conjunto com o Estado, inovações na saúde de um território (em geral, de um município). Há bons exemplos acontecendo no país, como por exemplo: Tellus.
  • O negócio tem um modelo de negócio de subsídio cruzado (contratualiza com outras empresas e oferece serviços a custo zero para o Estado). Exemplo: a cada X contratos fechados com hospitais privados, um hospital público recebe gratuitamente a mesma solução.

Temos percebido um crescente interesse por parte de Institutos e Fundações empresariais na área de saúde. Esta maior aproximação pode ampliar a oferta de capital para disponibilizar e custear estas inovações para organizações públicas. Na área de educação este tipo de inovação já ocorre com maior frequência em escolas públicas e é essa isonomia que gostaríamos de ver acontecer na área de saúde.

Estamos presenciando a abertura de uma janela de oportunidades para o campo da saúde. Acreditamos que esta janela trará consigo boas oportunidades de implementação de inovações diversas na área, em especial no interior do Estado e com foco na melhoria da qualidade do atendimento prestado pelo SUS aos 75% da população brasileira que depende majoritariamente dele.

* Alguns exemplos, a título apenas ilustrativo: Dr Consulta, Policlínica Granato, Docctor Med, dentre muitas outras.

 

Fábio Deboni é gerente-executivo do Instituto Sabin e atua na gestão do investimento social privado do Grupo Sabin. Coordena duas Redes Temáticas no âmbito do GIFE, a de Saúde e a de Negócios de Impacto Social.

Texto retirado do blog Cidadania Fácil da MGOV - Negócio acelerado pela Artemisia

 

 

 

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